terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Paranoicas

....Uma histórinha para encerrar este fim de ano... não tem haver com pedal ou bike... encontrei no blog "Ander Izagirre" e achei interessante....



Son unas histéricas

Enviei uma pergunta a uma amiga. Ao invés de uma resposta direta, ela me enviou uma lista com dez lembranças de sua vida (alguns detalhes foram modificados para preservar seu anonimato).

1) Quando minha irmã tinha uns 8 ou 9 anos, um velho se aproximou dela na praça e disse: “Te dou um doce e você me da um beijinho”.

2) Quando eu tinha 12 anos, fui com uma amiga à fábrica em ruínas que existia de frente para a nossa casa. Apareceu um velinho de boina, amável, que começou a falar conosco e a nos seguir enquanto íamos caminhando pela fábrica pisando em cacos de vidro. Quando ele pegou confiança, agarrou meu braço. “Deixe que te levante para ver quanto você pesa”. Eu soltei o braço, me afastei rapidamente. Pus-me em alarme. E saímos. Minha amiga me disse: “Garota, como você reagiu.” Me perguntou por que eu reagi assim e porque outras crianças não reagiriam dessa forma. O que faz com que eu seja assim tão alarmada, desconfiada.

3) Com 13 anos, um dia esperava a minha mãe na rua, junto ao portão.Veio um garoto da minha idade por pela minha direita, vinha muito junto à parede onde eu estava. Também me alarmei. Agarrei-me a um tapete e o levantei a altura dos peitos como forma de proteção. Ele passou do meu lado e senti uma coisa como que um belisco en El coño. Subiu-me um calafrio até a cabeça, me senti gelada, violada de algum modo. Eu me lembro como me senti naquele dia e por muitos dias depois. No dia seguinte tínhamos uma festa de família, me recordo das roupas que usamos, as fotos que tiramos, eu com meu rosto pálido e minhas roupas verdes, triste, manchada, recordando o dia anterior. Sempre sinto uma grande tristeza quando vejo essa foto mesmo tantos anos depois.

4) Uns anos mais tarde, esse mesmo cara começou a dar tapas no bumbum insinuando-se para uma vizinha. Outro dia, passava com sua bicicleta pelo parque quando ele pegou no bumbum de uma amiga.

5) Com 16 anos, em um trem, me sentei ao lado de um homem. Depois de um pouco de conversa, ele começou a pegar na minha mão. Logo me pediu para que lhe desse um beijo. Eu não me atrevia nem a me mover.  Me ofereceu $ 40.000 Pesetas para que eu fosse com ele a um motel.

6) No Perú, no meio da praça da catedral, um senhor passou a mão em meu bumbum. Também ali no trem, um homem esfregou uma companheira. Em Londres, no meio da rua, outro cara tocou meu bumbum.

7) Na universidade, na saída da sala, um amigo de turma me cercou, agarrou minhas calças na altura do tornozelo e a levantou de repente para que todos pudessem ver minhas pernas sem depilar. Outro dia, diante de mais pessoas me disse: “Tens as orelhas mais feias que eu já vi”.

8) Em um polígono na periferia de minha cidade, onde eu trabalhava, um homem me gritou de uma van: “Vou comer sua B%#*#$”! Outro dia, neste mesmo bairro, descia uma ladeira andando e um carro que subia passou do meu lado, devagar, com uns tipos dentro. Segui caminhando, olhei para trás e notei que haviam parado no alto da ladeira. O carro retornou, começou a descer, passou por mim e cruzou diante de mim parando logo à frente me esperando. Vi que dentro havia quatro homens. Fiquei muito nervosa e corri para um hotel onde havia mais pessoas e o carro se foi.

9) Quanto eu tinha uns 20 anos, um amigo de meu pai, casado e com filhos, me deu uma carona de uma cidade para outra em seu carro. Eu estava no assento dianteiro do carona. Na metade do caminho ele estendeu a mão apoiando-a sobre minha coxa, dizendo-me: “Eu tenho muito apreço por você e sua família”. Ele não fez nada mais. Mas aquele não era um modo normal de me tocar. Eu não fiz nada nem lhe disse nada.

10) Há duas semanas atrás, de noite em um bar, bem diante de mim passaram a mão no bumbum de uma garota. Ela se virou e disse: “Vai passar a mão na bunda e sua mãe!” No bar havia dói homens sorrindo escondidos na impunidade do escuro do bar. Ela não tinha como saber qual dos dois havia sido. Nesta mesma noite, voltando pra casa caminhando por volta das quatro da manha, um rapaz voltava fazendo brincadeiras com outro amigo, quando veio até mim e disse “guapaaa” (linda). Um pouco mais adiante, um garoto me gritou da esquina de uma rua: “psiu-psiu”, dizendo-me: “Garota, venha até aqui”.

*

Como esta amiga tem dito algumas vezes sobre os “pequenos” abusos, assédios e pressões que em geral as mulheres sofrem ao longo de sua vida. Os abusos mais graves são muito mal vistos, denunciados e em geral punidos até com severidade. Porém há uma gama de abusos “menos graves” que são tolerados. Estes abusos são aceitos pela sociedade, tolerados e até riem diante de alguns deles.

Nos últimos tempos tenho perguntado sobre este assunto a varias amigas e todas, absolutamente todas, tem um repertório de histórias assim. Pequenos assédios desde que eram crianças, gracinhas pesadas, comentários supostamente graciosos no trabalho sobre seu corpo, suas roupas ou sua situação amorosa, piadinhas com as quais se sentiram coagidas e “controladas”... e muitas compartilham uma mesma sensação: Todos estes episódios — embora tenham atingido a todas com muita gravidade (grande desconforto)  — em teoria, não são o bastante para que se queixem, para que reclamem ou se ofendam. Porque então você é tão exagerada ou histérica? Se te incomoda quando você caminha pela rua de noite e um rapaz numa esquina qualquer te chama de “guapa” (bonita, gostosa), é porque você é uma fresca. O rapaz não sabe — ou não se importa — é que a garota, ao ser abordada de forma assídua e com tamanha frequência, possa, em muitas circunstancias, converter a suposta cantada em uma atitude incomoda e ameaçadora.

Tenho assim a impressão que em geral nós homens não temos consciência desta frequente pressão que tantas mulheres sofrem, temos dificuldade em nos colocarmos em seu lugar, em sua pele, nem imaginamos que terão que suportar vez ou outra, toques ou comentários que supomos engraçados, elogiosos e galanteadores. Há os que praticam esses pequenos assédios, que como vimos são também uma forma de agressão, de coação; outros apenas riem das gracinhas proferidas e lhes atribuem uma importância menor, não enxergando tais atos como coação ou uma forma de agressão. Não nos damos conta, ou talvez não queremos nos dar conta, mas todo este ambiente de suave agressão acaba restringindo a liberdade de ir e vir sem que sejam molestadas pelo fato de serem mulheres.

Acaso os homens não sofrem assédios e pressões? Sim, claro, mas em um grau muito inferior, dado que não nos afeta tanto. Não ao ponto em de desenvolvermos uma atitude de psicose e medo, que nos limite a liberdade de ir e vir. Darei um exemplo pessoal:

Quando eu tinha 16 anos, num sábado de madrugada ia eu andando pela cidade, até o local em que eu havia trancado a bicicleta para que pudesse voltar para casa. No caminho passei por um homem que parou para me perguntar a hora. Eram quatro da manha. Continuei meu caminho e notei que o homem me seguia. Em vez de seguir reto pela avenida principal, dei umas voltas para ver para comprovar se o cara estava realmente me seguindo. Constatei que me seguia, para onde eu me virasse ele ia trás de mim. Por fim cheguei até minha bicicleta, apressei-me para destrancá-la. Logo aquele sujeito chegou novamente próximo de mim, puxou as calças e cueca e começou a me assediar. Eu saí correndo.

Existe uma grande diferença nessa história que se passou comigo, para a história de uma mulher. Quando aquele sujeito estranho me seguia a primeira coisa que pensei foi que umas horas antes ele havia me visto trancar a bicicleta e que me seguia para roubá-la de mim. Sequer me passou pela cabeça que eu corria algum tipo de perigo sexual. Com 16 anos, na minha cabeça não existia esse medo. Esse medo que sem dúvida é o primeiro que vem a cabeça de uma garota dessa idade. O garoto de 16 anos imagina que lhe possam roubar a bike ou coisa do tipo. A garota de 16 anos, que podem a violar. Porque vivem com essa preocupação desde criança e ao longo de toda sua vida. Sempre tem um velinho na praça que as agarra e as esfrega um pouco, um adolescente que no colégio que lhes passa a mão no corpo e lhes assedia de alguma forma, um brigão de bar que se coloca bravo com elas diante de seus colegas homens, um chefe que faz gracinhas desagradáveis sobre seu aspecto...

*

Minha amiga me enviou essa lista de dez recordações como resposta a minha pergunta. Eu somente havia lhe perguntado o que ela achava do artigo da jornalista June Fernández.

June primeiro escreveu no Facebook uma lista de atitudes que lhe perturbava quando um homem desconhecido lhe abordava nas redes sociais com exagerada confiança. Após o seu texto, veio uma enxurrada de comentários de outras mulheres expondo várias situações semelhantes que as incomodavam bastante. Um rapaz entrou na discussão para minimizar o assunto, dizendo que não era para tanto e que os homens também sofrem assedio e tal...

June comentou: “Quantos vieram te acusar de um paranóico?” E depois publicou esta entrada em seu blog: ‘Paranoicas”.

Eu recomendo muito que leiam este post e o debate que se desenvolveu nos comentários, onde algumas mulheres relatam suas experiências. E que vocês julguem se essas mulheres são umas exageradas e histéricas ou se os homens deveriam parar e pensar um instante sobre este assunto, repensando suas ações.


________________


Nenhum comentário: