terça-feira, 4 de outubro de 2011

Uma homenagem à bicicleta

Comentário sobre o livro “Éloge de La bicyclette”, de Marc Augé.

Texto de Martin Tironi, integrante do Colectivo LaBici
Tradução: Ítalo Leonardo

Como estamos celebrando o lançamento do Laboratório LaBici, nos pareceu oportuno fazer uma breve resenha de um livro que busca indagar sobre os significados antropológicos da bicicleta. Trata-se de um dos mais recentes livros do antropólogo Frances Marc Augé, chamado “Éloge de La bicyclette” (Elogio à Bicicleta, 2007).


Mas para os que não o conhecem, é conveniente fazer uma breve introdução ao trabalho de Marc Augé. Para compreender o verdadeiro giro conceitual e moral que faz o etnólogo em seu trabalho acima citado, é necessário ter pelo menos algumas referencias de seus trabalhos recentes.

Augé é provavelmente um dos antropólogos vivos mais conhecidos da atualidade, um intelectual critico, uma personalidade bastante pop capaz de encher grandes salas com seu público em cada país por onde passa. Sem mais delongas, testemunhei uma conferencia de Augé há alguns anos atrás na Biblioteca Nacional de Santiago. O evento estava repleto de gente, em sua maioria universitários, mas também estudantes do ensino médio, grande parte deles com seus cadernos de notas ou ainda um livro do autor debaixo do braço.

Porém, voltemos ao trabalho de Augé. Seus trabalhos mais conhecidos são “Um Ethnologue dans le métro” (Uma antropologia do metro, 1986) e “Non-Lieux, introduction à une anthropologie de La sobremodernidad” (Não-lugares, introdução a uma antropologia sobre a modernidade, 1992). É sem duvida, este ultimo livro, o que tornou Augé mundialmente conhecido. Neste trabalho, o antropólogo cunhou o conceito de Não-lugar, que se tornou rapidamente numa noção de “todo terreno” ou ainda “qualquer lugar” e a partir de então utilizada na mais diversas áreas do conhecimento. Sem entrar em detalhes, Augé utiliza a conão de Não-lugar para caracterizar a cidade moderna, onde o anonimato, a frieza e a funcionalidade se fundem para projetar a imagem de lugares sem identidade nem memória, cidades de usuários e consumidores em transito: hotéis, caixas eletrônicos, supermercados, auto estradas, aeroportos, estacionamentos, etc. a idéia de não-lugar aponta, finalmente, a morte da experiência urbana no seu sentido romântico. Lugares sem solidariedade nem experiências criativas, sem interesses comuns nem socialização.



Contudo, em seu livro “Elogio a La bicicleta” encontramos algo de esperança em seu diagnóstico sobre a cidade contemporânea. E mais concretamente, Augé parece ver na bicicleta uma possibilidade de revitalização da experiência de lugar e resistir à invasão dos não-lugares.

Mas o que verdadeiramente nos propõe Augé neste livro de não mais que 100 páginas e leitura amena? O etnólogo trata de situar a analise da bicicleta mais além de sua condição de meio de transporte, articulando aspectos culturais, históricos e de identidade, que rompem a aspectos históricos deste invento de mais 150 anos de existência. Em “Le mythe ET l’histoire”, a primeira parte do vibro, o autor faz uma reflexão histórica em torno das práticas culturais associadas ao uso da bicicleta. Faz ainda referencias a um clássico do neorrealismo italiano, “El ladron de bicicletas”, de 1948, de Vittorio de Sica, como exemplo de lugar central que a bicicleta ocupa no imaginário popular da época. Em um estilo que lembra “Mitologias”, de Ronald Barthes, Augé faz uma análise do lugar ocupado por este meio de transporte justo às classes mais populares da frança. 

Contudo, atualmente aviam sinais, segundo o autor, de que este estado de nostalgia em torno da bicicleta já fora quebrado, visto que algumas transformações urbanas recentes estariam transformando seu status como meio de transporte. 

Na verdade, Augé observa uma massiva erupção das bicicletas como meio de transporte em crescimento (no caso de Paris se trata do sistema “Vélib” inaugurado em 2007) um sinal de recuperação de alguma das crises de mobilidade que afetam as grandes cidades. Dito de outra forma, Augé enxerga na bicicleta uma possibilidade real de sonhar com uma cidade diferente. Ante o urbanismo cinza e barulhento que nos ameaça com uma constante redução de território, e construções de fachadas decoradas para turistas, que disfarçam a dura realidade. A bicicletas acenam que os sistemas públicos cicloviários são uma possibilidade de ecologizar nossas praticas e costumes além de recuperar a experiência livre das cidades.

“Je pedale, donc jê suis (pedalo, logo existo). Com esta analogia a frase cartesiana, Augé pretende mostrar que andar de bicicleta é muito mais que um puro ato funcional e utilitário: es, antes de mais nada, um modo de existir, uma prova de se está no mundo. O resgate das bicicletas nas cidades modernas nos conecta outra vez com nossa infância, com as primeiras travessuras e brincadeiras antes do adventos tecnológicos.

É impossível falar da bicicleta, explica Augé, sim falar de si mesmo. Uma das primeiras descobertas que temos de nosso corpo acontece sobre uma bicicleta. Através dela, o corpo se transforma em um instrumento de exploração do mundo, mas também, ferramenta de exploração de nossas capacidades e astucias.


Ao mesmo tempo, andar de bicicleta constitui para Augé uma aproximação diferente com o território: nos permite unir pontos, lugares e caminhos que outros meios de transporte não permitem. Daí sua afirmação de que este objeto (a bicicleta) nos revela uma geografia diferente, poética. Graças ao ciclismo se torna possível tornar acessível determinados lugares das cidades que antes não se poderia acessar com facilidade.


Nos confrontamos de forma permanente com a sensorialidade do mundo, as seu odores e sons. Assim como aventaram Michel de Certeau em suas belas reflexões da caminhada na cidade, andar de bicicleta, aponta Augé, nos predispõe a ocupar os espaços a margem dos planejamentos pré estabelecidos, a “vagar” segundo nossa própria intuição e habilidades, subvertendo costumes e normas.

A exaltação continua, Augé aponta que a bicicleta nos permite tomar consciência do lugar onde vivemos e devolver ao corpo a centralidade a que merece em meio a vida urbana. Seu uso possibilita uma liberdade de movimento sim limites na cidade, transformando-a em um terreno de aventuras e encontros imprevistos.


Para Augé, é a figura de “flâneur” de Paris que novamente toma forma através da operação Vélib’, restituindo a liberdade de movimento aos seus habitantes e o ar de natureza que requer a urbanização.

O giro de Augé nestas reflexões é claro. Se a sua noção de não-lugar previu uma colonização progressiva de espaços vazios, sem identidade, com a massificação da bicicleta observa uma possibilidade de recuperar a razão de ser das cidades: o contato cara a cara. O interessante é como os milhões de bicicletas que introduz Vélib’ – o sistema de bicicletas públicas de Paris – no só teve um efeito nos modos de circulação das pessoas, mas também no pensamento intelectual de um dos antropólogos mais conhecidos do mundo.




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